“Qual é a linha pedagógica desta escola?” Esta pergunta é bastante comum quando pensamos no trabalho escolar. Mas, o que isso realmente quer dizer? Podemos pensar em uma única linha que acomode o jeito de cada instituição pensar, aprender e ensinar? Existe uma que seja melhor que outra? Será que uma linha pedagógica traz um aprendizado mais eficaz? Ou será que são apenas “moda”.

Tratar sobre as diferentes linhas pedagógicas pode ser fascinante e, ao mesmo tempo, muito profundo. Afinal, o que no nosso mundo é preto no branco? Rapidamente colocando, as linhas pedagógicas são metodologias para desenvolver os processos de ensino-aprendizagem de estudantes nos diferentes ciclos da educação escolar. 

Portanto, tudo isso implica uma série de práticas que se baseiam em diversos princípios. Contudo, com o tempo de sua prática, as avaliações constantes e a evolução do tempo e das sociedades, essas práticas se modificam e ganham novas nuances. São de fato, Ciências Humanas.

Escolher uma linha pedagógica é muito importante para ajudar a firmar a cultura, a filosofia e a identidade da instituição. Por meio dela, será possível compreender a comunidade que a cerca e como a escola pode apoiá-la, através de suas melhores práticas, seus estudantes e famílias. 

Além disso, a linha pedagógica está na base do trabalho de professores, coordenadores e gestores. Ou seja, são as cores que realmente contam a história da sua escola.

Hoje, diferentes Sistemas de Ensino abraçam diversas linhas pedagógicas, oferecendo inúmeras possibilidades de trabalho para que os professores e a escola possam se concentrar no que realmente importa: estar com seus alunos e desenvolvê-los para o melhor de suas potencialidades.

É dado que existem muitas metodologias de ensino, como a Montessoriana, a Freiriana ou a Democrática, por exemplo. No entanto, escolhemos focar nas mais conhecidas e praticadas atualmente. Vamos conhecer algumas delas.

Linha Construtivista

Provavelmente uma das mais conhecidas e celebradas linhas pedagógicas da atualidade, o Construtivismo baseia-se nos estudos do biólogo, epistemólogo e psicólogo Jean Piaget e sua atenção ao desenvolvimento humano e suas fases. Suas ideias abrem possibilidade para que seus discípulos, como Emília Ferreiro, especializem e ampliassem seus estudos, compreendendo e dando à prática pedagógica caminhos para uma alfabetização mais significativa às crianças.

A linha piagetiana implica que a cada fase de desenvolvimento, o ser humano é capaz de ampliar suas habilidades e competências, construindo e alargando seus conhecimentos. O aprendizado é mediado por professores que permitem que os estudantes reflitam e experimentem o que lhes é apresentado, para maturarem esse conhecimento de acordo com sua faixa etária e possibilidades de pensamento.

Hoje, também se fala de Vygotsky e do Sócio-Interacionismo. Neste caso, apoia-se nas ideias de Lev Vygotsky, psicólogo, que desenvolveu um pensamento de maturação e construção social do conhecimento. Assim, a aprendizagem se dá por meio dos pares e da mediação de professores, que oferecem aos estudantes conceitos científicos ou do senso comum a serem maturados de acordo com a experiência de cada um. 

Segundo o consultor pedagógico Éder Vilela, com mais de 10 anos de experiência em escolas de idiomas, essa segunda teoria é justamente a mais usada para o ensino de línguas estrangeiras com foco na conversação, por exemplo.“O uso de pares para compartilhar suas opiniões, construções lexicais é ótima para construir confiança além de gerar relacionamento, uma das bases da sociedade”, diz ele.

De forma geral, ambas linhas entendem o estudante como um ser ativo, potente, curioso e pensante, capaz de criar e testar hipóteses sobre o conhecimento e o mundo a sua volta, colocando-o como centro do processo educativo.

Linha Waldorf

Ensejada na Antroposofia (sabedoria do ser humano), a Pedagogia Waldorf, proposta pelo educador, filósofo e artista Rudolf Steiner, coloca o ser humano em diferentes pilares: Físico, Alma e Espírito. Sua prática busca balancear a busca por informações e conceitos, a maturidade cognitiva e emocional e o desenvolvimento de habilidades, que permitam que a pessoa se torne autônoma e capaz de dar sentido à sua vida. 

O trabalho respeita períodos de 7 anos e oferece aos estudantes experiências de aprendizagem que trabalham os objetos de conhecimento juntamente com o agir e o sentir.

Linha “Tradicional" ou Conteudista

Talvez uma das formas mais antigas de se pensar a transmissão de conhecimentos acadêmicos, a ideia de educação tradicional vem atrelada ao momento histórico do Iluminismo, que passa a valorizar o pensamento racional e científico e que demonstra como o conhecimento pode “salvar" a humanidade de suas dificuldades. 

Universalizar o conhecimento é o foco dessa linha e a busca pela prática, para que o estudante se aprimore cada vez mais, é uma experiência de aprendizagem importante.

Embora amplamente criticada por aceitar poucas inovações e ter seu foco no professor como centro do conhecimento, é possível flexibilizar as práticas educativas, mantendo seu viés de solidificar o conhecimento acadêmico e científico.

O mundo VUCA e a escola

Tendo em vista as premissas de cada uma dessas metodologias, e que o método pressupõe processos organizados e sistemáticos, precisamos falar sobre o tal mundo VUCA. Afinal, tudo é relativo, como diria um certo físico há mais de 50 anos.

O termo “VUCA” vem de Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity (ou, em português, Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade). Trata-se de um acrônimo, que foi utilizado pela primeira vez em 1987, por Warren Bennis e Bert Nanus. Naquele momento, o mundo estava saindo da Guerra Fria e apresentava uma realidade instável, formada por vários elementos e aspectos.

Embora, neste contexto, estejamos falando de um corpo de conhecimentos mais voltados à liderança e às estratégias de organizações, é dado que nos meandros da atualidade também precisamos olhar para o mundo de uma forma muito mais fluida e cheia de possibilidades. Ou seja, saindo das nossas bolhas ou purismos.

Isso quer dizer que escolher uma linha metodológica de trabalho para a sua escola irá sempre implicar em reconhecer as possibilidades de mudança e a volatilidade das respostas que encontramos. Isso já aconteceu em 2020, por exemplo, quando as escolas precisavam se reinventar para manter o seu processo de ensino com os estudantes. Seguindo o mesmo pensamento, quantas surpresas e outros imprevistos não se encontram no desenvolver de um projeto pedagógico?

Dessa forma, escolher uma linha pedagógica implica em reconhecer as complexidades de cada sala de aula, da sua escola e sua comunidade, para acomodá-la em seus processos. Sem, no entanto, deixar ninguém para trás.

Tathy Morselli Auriema

Consultoria de Soluções Educacionais

Departamento Pedagógico de Expansão Pearson Brasil