O dia 7 de setembro de 1822 marca a conquista da Independência do Brasil. A História geralmente retoma uma cena fortemente difundida nos estudos sobre a data: às margens do rio Ipiranga, Dom Pedro teria levantado a sua espada e proferido o grito: “Independência ou Morte”. Mas será que as coisas aconteceram realmente desse jeito?

O post de hoje vem mostrar que aquela pintura, muito presente nos livros, não é um retrato tão fiel assim de um dos momentos mais importantes da história brasileira.

Circunstâncias do Grito da Independência

O quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo (1888)

Independência ou Morte - Pedro Américo

O quadro “Independência ou Morte”, finalizado pelo pintor Pedro Américo no ano de 1888 é, sem dúvida, a maior referência a esse momento tão representativo da história brasileira. Porém, entre os historiadores, há um consenso de que a pintura traz algumas informações não tão verdadeiras assim.  

Primeiro, o próprio Pedro - não o imperador, mas o artista - nasceu anos após o ato, somente em 1843. O quadro foi encomendado por Dom Pedro II e começou a ser produzido só no ano de 1885. O pintor, então, fez visitas ao lugar apontado como local da proclamação e coletou imagens e referências para, um tempo depois - apenas um ano antes da Proclamação da República - entregar a pintura pronta.

O quadro possui importantes registros históricos, mas sabe-se que ele foi feito para criar uma apresentação mitológica do fato, evidenciando a figura heroica de Dom Pedro I e o seu desejo de liberdade em relação à corte portuguesa.

Ouviram do Ipiranga?

Há quem diga que o grito “Independência ou Morte” de fato nunca aconteceu. Pelo menos não assim, já que houve um discurso bem maior e a frase teria realmente sido criada pelo próprio imperador, mas em cartas enviadas a outras províncias, buscando inflamar o nacionalismo e conseguir apoio político para o governo.

Outro fato importante é que a cena não aconteceu às margens do riacho do Ipiranga e, provavelmente, Dom Pedro recebeu a carta do governo português que inflamou a separação dos dois países no alto da colina, por onde passava ao voltar de Santos para São Paulo.

Uma cena de independência bem diferente do quadro

Nada de cavalos brancos - pois se utilizavam mulas para subir a serra - ou trajes impecáveis de oficiais do exército. Ao que tudo indica, a cena aconteceu em um cenário bem mais simples do que aquele que está ilustrado no quadro de Pedro Américo. Primeiramente, teria sido praticamente impossível uma guarda real tão grande estar seguindo o imperador nessa viagem, visto que ela só foi criada algum tempo depois do estabelecimento do império.

Ainda, a chegada até a colina onde teria acontecido o recebimento da carta era bem complicada, o que dificultaria muito a presença de tantas pessoas integrando a comitiva de Dom Pedro I. E quanto às roupas, o futuro imperador estava voltando de uma viagem cansativa, que durou alguns dias. Portanto, é mais fácil imaginar que ele estivesse com trajes mais simples, empoeirados e sujos.

Além disso, a pose heroica do príncipe regente seria uma impossibilidade graças aos problemas intestinais que o acometiam. Durante a viagem, a reduzida corte teve que parar algumas vezes para que Dom Pedro se aliviasse da diarreia no meio das plantações.

Sem a participação popular ou a existência da Casa do Grito

Não há indícios seguros de que haveria alguma participação popular no momento do recebimento da carta que suscitou a manifestação de separação entre Brasil e Portugal. O que os documentos indicam é exatamente o contrário, visto que a Independência do Brasil se configura mais como uma articulação da elite brasileira do que um movimento do povo.

Outros componentes da paisagem do quadro ainda não existiam na época do acontecido, visto que a Casa do Grito, parte importante da pintura, só foi construída após o 7 de setembro de 1822. O pintor Pedro Américo teria visitado o local décadas depois e resolveu homenagear a construção em sua obra.

O hino da Independência

Uma outra lenda do período dizia que o imperador Dom Pedro I teria composto o Hino da Independência na mesma tarde do dia 7 de setembro. Os indícios históricos apontam que isso de fato não aconteceu, visto que, tendo chegado em casa exausto, é mais provável que ele tenha ido descansar e, à noite, consta que foi a uma apresentação teatral. A composição, provavelmente, já estaria pronta antes disso.

Antecedentes da Independência

A Independência do Brasil não foi algo que ocorreu da noite para o dia, muito menos apenas na manhã do dia 7 de setembro de 1822. Historicamente, foi um fato envolto em uma série de outros desdobramentos anteriores, que se estenderam até a consolidação do Brasil como país independente.

Vinda da família real portuguesa

Bem antes do Grito da Independência, mais precisamente no ano de 1808, a vinda da família real portuguesa para o Brasil resultou em um intenso avanço político e diplomático do país. Porém, com a abertura dos portos brasileiros, o estabelecimento de um comércio mais forte no país e uma melhor situação econômica, a manutenção da colônia começou a ser algo difícil para a corte portuguesa.

Por tudo isso, mais os movimentos que já ocorriam no país no século anterior, a Coroa já previa uma possível separação entre Brasil e Portugal. Inclusive, documentos históricos apresentam  as palavras do próprio D. João VI dizendo a Pedro que, ao invés dos “revoltosos aventureiros”, preferia seu filho como futuro imperador do Brasil, pois ele perpetuaria o Brasil nas mãos de um membro da família real de Bragança.

Dia do Fico

Após a estadia da família real portuguesa, o Brasil já contava com uma liberdade política maior, figurando agora como parte de um reino unificado. Porém, a partir de 1821, Portugal começou a demonstrar interesse em voltar o país novamente para a posição de colônia, o que desagradava a aristocracia local. Então, em 9 de janeiro de 1822, Dom Pedro recebeu uma carta solicitando sua volta ao país europeu. O príncipe regente se negou a ir e permaneceu em terras brasileiras, um ato que ficou conhecido com o Dia do Fico.

Sempre no dia 7 de setembro?

Entre os historiadores, há a visão do 7 de setembro como uma data construída, e que não diz respeito ao exato momento da leitura da carta que representou a ruptura entre Brasil e Portugal. Ainda durante o Império, já houve uma preocupação em estabelecer uma data oficial para essas comemorações e, com isso, criar uma identidade nacional mais forte.

Eram várias as possibilidades: 9 de janeiro, devido ao Dia do Fico; 12 de outubro, por ser a data da Aclamação de Dom Pedro I como Imperador do Brasil ou 1º de dezembro, momento da sua coroação, no Rio de Janeiro. Já o mês de setembro de 1822 foi muito marcado pelo trabalho dos políticos ligados ao governo em busca de conseguir mais apoio ao imperador. Com isso, criou-se um certo apreço por essa data, que inclusive marcou o dia da assinatura do tratado com Portugal, em 1825. Após todo esse contexto, o 7 de setembro de 1822 foi oficialmente divulgado como Dia da Independência do Brasil.

Desdobramentos pós-independência

Movimento pacífico e harmonioso

A ideia de que o Grito do Ipiranga aconteceu em uma nação unida em torno dos ideais de independência não se sustenta. Em primeiro lugar, ainda à época da subordinação a Portugal, não existia consenso quanto ao formato de governo que deveria ser implantado no país, e liberais republicanos e apoiadores da monarquia divergiam quanto a isso.

Pode-se imaginar um cenário no qual  Dom Pedro I assume um país gigante em território, mas não completamente unido. A principal fonte de apoio ao imperador era a aristocracia rural do sudeste, principalmente das províncias de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Já no restante do Brasil, ocorreram vários conflitos com portugueses, contrários à independência, e mesmo entre republicanos e monarquistas favoráveis a ela.

Movimento de comoção nacional

De fato, a independência não mudou muita coisa no dia a dia das pessoas, e provavelmente muita gente nem ficou sabendo que ela aconteceu. O Brasil ainda conservou os modelos herdados da Coroa Portuguesa por muitos anos, principalmente no que tange à economia e à estruturação da sociedade. Além disso, a construção de uma ideia de país enquanto nação levou tempo, e não  se estabeleceu imediatamente após o 7 de setembro de 1822.

O 7 de Setembro como construção mitológica da Independência do Brasil

Todos esses mitos sobre a Independência do Brasil, bem como as imprecisões históricas, fazem parte de uma busca por contar os fatos de maneira épica, de forma mais grandiosa e heroica do que eles foram de fato. Esse foi  um esforço dos governos dos séculos 19 e 20 para a criação de uma identidade nacional mais forte.

Além disso, a pintura de Pedro Américo não tem como função mentir sobre o período, mas faz parte de um estilo bem característico da época, o qual procurava engrandecer os momentos de bravura e coragem, criando figuras de heróis nacionais.

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