Você já imaginou como dois textos diferentes são capazes de conversar entre si? Apesar de essa ideia soar um pouquinho maluca, duas ou mais obras podem sim se relacionar, seja em seu conteúdo ou em sua estrutura, originando novas interpretações para quem as lê. Esse fenômeno, chamado intertextualidade, é extremamente comum no mundo da literatura e das artes. Que tal aproveitar para entendê-lo melhor?

O que é a intertextualidade?

A intertextualidade é definida como o diálogo entre textos e pode ocorrer entre duas ou mais obras. Esse fenômeno é caracterizado pela maneira como um texto influencia outro ou se relaciona diretamente com ele, fazendo uma referência - explícita ou não - aos elementos nele expressos, seja em seu conteúdo, seja em sua forma, ou em ambos os casos.

Esse diálogo pode, inclusive, acontecer entre as linguagens audiovisual e escrita, e é comum em obras literárias, peças publicitárias, músicas e charges, por exemplo. Vale ressaltar que a intertextualidade não está limitada a um único fator (um material pode fazer referência a vários outros), e essa relação não exige que ambas as obras pertençam ao mesmo gênero. Por isso, um poema pode ser parodiado em uma música, assim como o trecho de uma obra literária pode ser citado em uma propaganda - basta criatividade para realizar tais conexões.

Como a intertextualidade ocorre

Em maior ou menor grau, toda composição textual ou obra pode ser considerada um intertexto. Isso acontece porque, durante o seu processo de criação, todo autor ou artista sofre influências diversas das obras com as quais teve contato ao longo da vida - e, de alguma maneira, tais traços são refletidos em sua produção.

A intertextualidade pode acontecer de algumas maneiras distintas. Aqui, listamos as ocorrências mais comuns. Vamos conhecê-las?

Paródia

A palavra paródia tem origem do grego parodèse significa “um canto semelhante a outro”. Muito utilizado pelos humoristas, esse recurso é caracterizado pela “perversão” de uma obra publicada anteriormente. Portanto, envolve algum tipo de crítica irônica ou caráter humorístico, alterando o sentido original de um determinado texto, recriando-o de maneira diferente.

Acompanhe o exemplo:

Texto original

“Minha terra tem palmeiras

Onde canta o sabiá,

As aves que aqui gorjeiam

Não gorjeiam como lá.”

(Gonçalves Dias, “Canção do Exílio”)

Texto parodiado

“Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza. (...)

Eu morro sufocado em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas são mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!”

("Canção do Exílio", Murilo Mendes)

Perceba que o texto do poeta modernista Murilo Mendes apresenta alterações no sentido original, atribuindo o uso de um tom crítico e colocações irônicas. Ainda é possível notar a referência ao texto de Gonçalves Dias, mas agora o novo trecho proporciona ao público outra interpretação.

Paráfrase

Também originada do grego, a expressão paraphrasis significa “reprodução de uma sentença”. Esse recurso consiste na reelaboração de um texto, reproduzindo as suas ideias originais, porém alterando a sua estrutura física.

Vamos acompanhar outro exemplo, tomando novamente como referência a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. Veja:

Texto original

“Minha terra tem palmeiras

Onde canta o sabiá,

As aves que aqui gorjeiam

Não gorjeiam como lá.”

(Gonçalves Dias, “Canção do Exílio”)

Texto parafraseado

“Meus olhos brasileiros se fecham saudosos

Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.

Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?

Eu tão esquecido de minha terra...

Ai terra que tem palmeiras

Onde canta o sabiá!”

(Carlos Drummond de Andrade, “Europa, França e Bahia”)

Aqui, as referências feitas por Carlos Drummond de Andrade ao texto original são facilmente perceptíveis. Perceba como não há a perversão do texto de Gonçalves Dias, mas sim uma reprodução das suas ideias originais, alterando apenas algumas palavras. Por isso, há uma paráfrase do texto original.

Epígrafe

Esse recurso é muito utilizado em textos científicos e obras literárias. A palavra “epígrafe” significa “posição superior” e consiste na opção do autor por selecionar um trecho de outra obra para introduzir o seu texto. Normalmente, a epígrafe dialoga diretamente com o conteúdo que será discutido na nova obra, realizando uma breve relação entre ambos.

Nesse caso, como a epígrafe é um trecho cuja autoria pertence a outro artista, ela tem estrutura e ideias mantidas conforme o original. Vamos conferir alguns exemplos?

Em uma dissertação sobre educação, pode-se optar por mencionar, ao início do trabalho, por exemplo, uma epígrafe de Paulo Freire:

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo; os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”  (Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”)

Por outro lado, em um texto sobre a vida nas cidades e questões ligadas ao desenvolvimento urbano, pode-se utilizar uma epígrafe de João do Rio:

“Cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas. São assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.” (João do Rio, “A Alma Encantadora das Ruas”)

Citação

A citação consiste na transcrição de trechos e frases produzidos por outros autores em outro texto, originando um novo tipo de diálogo com este conteúdo. Normalmente, esse recurso é apresentado entre aspas ou em itálico e menciona de maneira explícita quem é o autor que escreveu tais trechos.

Entre os diversos tipos de intertextualidade, esse figura como um dos mais usuais e importantes, uma vez que é utilizado para evitar o plágio, ação caracterizada pela apropriação das ideias de outro alguém e considerada ilegal.

Acompanhe alguns exemplos:

Segundo Milan Kundera, “nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vida anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.”

Segundo Jostein Gaarder, em seu livro O Mundo de Sofia, “o fato de o mar estar calmo na superfície não significa que algo não esteja acontecendo nas profundezas.”

Alusão

Derivado do latimalludere, o termo “alusão” significa “para brincar”. Também chamado de referência, consiste na menção explícita ou implícita de um texto original. Envolve a comparação ou combinação de ideias, relembrando determinados fatos e fazendo novas associações entre eles.

Acompanhe os exemplos abaixo:

“Eu ganhei um presente de grego!”

“Meu computador foi invadido por um Cavalo de Tróia.

Ambas as expressões são extremamente comuns em nosso cotidiano. Elas são uma alusão ao Cavalo de Tróia, grande estrutura de madeira enviada aos troianos durante a Guerra de Troia, na qual os soldados gregos se esconderam para enganar seus oponentes e atacá-los. Nesse caso, as frases fazem referência a um presente duvidoso, capaz de se disfarçar e trazer prejuízo.

Hipertexto

Também conhecido como hipermídia, o hipertexto é a inserção de um texto dentro de outro. Normalmente, origina uma rede de informações não linear e que pode ser interativa.

Um exemplo muito comum de hipertextualidade são os links inseridos nos textos do mundo on-line. Eles proporcionam o acesso a novas obras e informações, originando um tipo de leitura diferenciado. Também pode ser representada pelas anotações em margens e rodapés de livros, responsáveis por permitir que o leitor entre em contato com novas informações ao longo da sua leitura da obra.

Pastiche

O termo pasticium é originário do latim e significa “feito de massa ou amálgama de elementos compostos”. Muito comum no âmbito artístico e literário, o pastiche é a imitação explícita do estilo ou gênero de um autor -  sem, porém, tom crítico ou satírico. Assim, difere da paródia. Ele é responsável por originar um novo texto a partir dos fragmentos de muitos outros. Costuma ser muito utilizado em músicas e imagens.

Confira o exemplo:

Texto original

“Pois é. Tenho dito. Tudo aleivosia que abunda nesses cercados. Maisquenada. Foi assim mesmo, eu juro, Cumpadre Quemnheném não me deixa mentir e mesmo que deixasse, eu mentia. Lorotas! Porralouca no juízo dos povos além das Gerais! Menina Mágua Loura deu? Não deu.”

(Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”)

Texto pastiche

“Compadre Quemnheném é que sabia, sabença geral e nunca conferida, por quem? Desculpe o arroto, mas tou de arofagia, que o doutor não cuidou no devido. Mágua Loura era a virge mais pulcra das Gerais. Como a Santa Mãe de Deus, Senhora dos Rosários, rogai por nós!”

(Carlos Heitor Cony, Folha de S. Paulo, 11/09/1998)

Tradução

Derivado do latim traducere, a palavra tradução significa converter, transferir ou guiar. Corresponde à transformação de um texto escrito em língua estrangeira para a língua de outro país. Esse recurso é considerado um tipo de intertextualidade, pois ao traduzir uma obra, é possível utilizar diversas expressões e, consequentemente, proporcionar variadas interpretações ao público.

Veja:

“We loved with a love that was more than love.” (Edgar Allan Poe)

“Nós amamos com um amor que era mais do que amor.”

 

“If you can dream it, you can do it.” (Walt Disney)

“Se você pode sonhar, você pode realizar.”

As diversas obras textuais e audiovisuais desempenham um importante papel no processo da comunicação. Aprender a decodificá-las, compreendendo também as suas nuances subjetivas e a maneira como interagem entre si, é imprescindível para lê-las e entendê-las em sua totalidade de forma crítica.

Por isso, a intertextualidade pode ser uma ferramenta interessante não só para o estudo da língua portuguesa, mas para a interpretação dos seus mais diversos tipos de discursos.

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