Considerado um dos movimentos literários de maior importância para a língua portuguesa, o Trovadorismo possui uma rica história atrelada a importantes movimentos sócio-políticos do seu país de origem, Portugal. Entre suas métricas e rimas, as trovas reúnem o retrato de uma sociedade em processo de transformação, deixando a Idade Média para trás e caminhando em direção ao Classicismo. Que tal conhecer melhor as suas contribuições literárias?

Nasce um movimento literário

A Cantiga da Ribeirinha, conhecida também pelo nome de Cantiga da Garvaia, é considerada o marco inicial do movimento trovadoresco. Ela foi escrita por Paio Soares de Taveirós, em 1189. Esse período da literatura portuguesa perdura até o desenvolvimento do Quinhentismo, em 1418.

Confira um pequeno trecho da obra:

Cantiga da Ribeirinha

por Paio Soares de Taveirós

No mundo non me sei pareiha,

Mentre me for como me vai,

Ca já moiro por vós – e ai!

Mia senhor branca e vermelha,

Queredes que vos retraia

Quando vos eu vi em saia!

Mau dia me levantei,

Que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, dês aquel di’, ai!

Me foi a mim mui mal,

E vós, filha de don Paai

Moniz, e bem vos semelha

D’haver eu por vós guarvaia,

Pois, eu, mia senhor, d’alfaia

Nunca de vós houve nen hei

Valia d’ua Correa.

As influências do Trovadorismo

Considerado o primeiro movimento literário da Língua Portuguesa, o Trovadorismo surge no século XI, em plena Idade Média, alcançando seu apogeu entre os séculos XII e XIII. O movimento coincide com um período político intenso em Portugal, uma vez que é nesse momento histórico que o país começa a se configurar como um Estado unificado e independente. Seu principal ponto de difusão foi a região que compreende o norte de Portugal e a Galiza, na Península Ibérica.

O Trovadorismo nasce na corte portuguesa, por influência de artistas de origem nobre, sendo produzido majoritariamente no interior de seus grandes castelos. Dessa maneira, suas líricas refletem diretamente as regras sociais da classe alta e não influenciam diretamente outras camadas sociais da população.

Devido à larga influência da religião no cenário social da época, há ainda o predomínio da visão teocentrista do mundo e a exploração do papel de servilidade do homem para e com a Igreja.

Para você relembrar


Ao longo da Idade Média, a Igreja configurou-se como grande influência diante de diversos aspectos sociais. Além da larga atuação em questões políticas e econômicas, o clero também constituía uma força motriz diante das produções culturais, artísticas e literárias. Portanto, nesse contexto, podemos afirmar que a fé cristã ditava os valores, costumes e comportamentos do homem medieval.


Já em relação ao suporte político-econômico da época, o Feudalismo estabelecia um formato diferente para o controle de poder. Pautado em uma sociedade rural, autossuficiente e descentralizada, a estrutura feudalista garantia ao Senhor Feudal o direito de governar sobre determinadas terras, exercendo plenos poderes também sobre seus servos e vassalos. Dessa maneira, as terras eram oferecidas aos seus subordinados com a promessa de cultivá-las e, posteriormente, repartir a produção.

O Trovadorismo em sua forma

Chamadas de cantigas ou trovas, as poesias eram compostas e então cantadas com o acompanhamento de instrumentos musicais, como flautas, violas ou alaúdes. O autor das cantigas era chamado de trovador, e dele era exigido um grande conhecimento artístico, uma vez que os os textos necessitavam certo rigor formal, essencialmente relacionado às métricas e rimas, objetivando a sua musicalização. Por outro lado, o cantor das trovas, chamado de jogral, era responsável por apresentá-las em feiras ou festas, por exemplo.

Posteriormente, as cantigas eram manuscritas e organizadas em livros, conhecidos como cancioneiros. Ao todo, tem-se conhecimento de três cancioneiros, são eles: Cancioneiro da Biblioteca, Cancioneiro da Ajuda e Cancioneiro da Vaticana.

Entre os trovadores de maior contribuição para o cenário do movimento galego-português, estão Dom Duarte, Dom Dinis, Paio Soares Taveirós, João Garcia de Guilhade, Aires Nunes e Meendinho.

As cantigas do Trovadorismo

Dentro do movimento trovadoresco galego-português, as cantigas dividem-se em duas grandes classificações: as cantigas satíricas e as cantigas líricas. Acompanhe.

a. Cantigas satíricas

Cantigas de escárnio

As cantigas de escárnio eram pautadas, sobretudo, em críticas, zombarias e colocações sarcásticas, cantadas de maneira sutil e sem mencionar de maneira clara a quem eram direcionadas. Normalmente, seus alvos eram figuras da nobreza ou mesmo alguém que pertencia ao mesmo círculo social que o trovador. Com frases e construções indiretas, as colocações agressivas eram escondidas e, por isso, as cantigas carregavam um tom extremamente ambíguo.

Cantigas de maldizer

Na contra-mão das cantigas de escárnio, as de maldizer era bem mais diretas em suas críticas. Com declarações incisivas, os trovadores pautavam suas líricas em sátiras diretas, muitas vezes utilizando palavras de baixo calão. Era comum, inclusive, citar de maneira direta o nome de quem era o alvo de tamanha zombaria.

b. Cantigas líricas

Cantigas de amor

Nas cantigas de amor, o eu lírico assume ares masculinos e declama o seu amor à mulher amada, um alguém idealizado e repleto de qualidades. Dessa maneira, tal eu lírico coloca-se em uma posição inferior e reproduz o sistema hierárquico feudalista. Nesse cenário, o trovador torna-se o vassalo de sua amada, tratada como suserana, e espera receber algum tipo de benefício em troca de seus serviços - aqui, representados pelas trovas e pelo amor não correspondido.

Cantigas de amigo

Apesar de escritas por alguém do sexo masculino, as cantigas de cmigo possuem um eu lírico feminino, normalmente uma camponesa ou pastora. Nessas cantigas, a palavra “amigo” tem o significado de “namorado”, e o seu tema principal é lamentação e a tristeza ocasionadas pela ausência do homem amado. São consideradas as expressões mais antigas e tradicionais desse movimento literário.

O movimento trovadoresco apresenta grandes contribuições para a literatura portuguesa e, claro, brasileira. É muito importante conhecer suas características e a maneira como suas temáticas auxiliam na compreensão de um período histórico complexo e cheio de transformações.

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