Legenda: capa do catálogo da exposição da Semana de Arte Moderna

A Semana de Arte Moderna de 22 é tida como o marco inicial do movimento modernista no Brasil. Ocorrida entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, contou com apresentações musicais, declamações de textos e poesias, e exposições artísticas, que buscavam romper com a tradição e apresentar novas formas de ver o mundo. O evento foi realizado no Teatro Municipal de São Paulo e teve como idealizadores alguns nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Di Cavalcanti.

Para te ajudar a estudar mais sobre o assunto, nós separamos uma explicação completa, com o contexto histórico em que aconteceu a semana, bem como seus principais desdobramentos para a sociedade e a história brasileira. Confira nos itens a seguir:

Uma era de transformações

É importante ressaltar que, nas primeiras décadas do século XX, o Brasil passava por uma época de transição. O fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, resultou em uma série de mudanças políticas, econômicas e sociais em todo o mundo, o que também aconteceu em terras tupiniquins. O café finalizava seu ciclo como principal produto brasileiro e começava um processo de industrialização no país, motivado principalmente pelos investimentos estrangeiros e pela compra de maquinário de outros países.

Se, durante os séculos de colonização portuguesa, o Rio de Janeiro foi considerada a principal cidade do Império, inclusive recebendo a coroa portuguesa no início do século XIX, agora São Paulo começava a se destacar. Até os primeiros anos do século XX, o Rio de Janeiro ainda era uma cidade internacional,  abrigando importantes aristocracias brasileiras. Porém, principalmente devido ao processo de industrialização, São Paulo se impunha como uma grande metrópole, cosmopolita e urbana.

Enquanto isso, a elite cafeeira enviava seus filhos para estudar nas grandes instituições europeias. Estes, por sua vez, traziam de volta consigo novas visões, baseadas no contexto da Europa. A imigração de pessoas vindas de países como a Alemanha e o Japão também trazia diferentes pontos de vista para a realidade brasileira. Com isso, a sociedade e a economia, ainda com resquícios fortes da época de colônia, já não cabiam dentro de uma nação que procurava se modernizar.

Influências europeias

O desejo de romper com costumes e tradições do século XIX não era exclusivo do Brasil. Na verdade, essas ideias modernistas foram baseadas em outros movimentos vanguardistas europeus, que têm como destaque:

Futurismo

O movimento - muito divulgado por meio de manifestos, como o “Manifesto Futurista”, do italiano Felippo Marinetti - defendia uma radicalização na subversão da cultura e das expressões artísticas. Valorizando a experimentação e o contraste às estruturas clássicas, o futurismo foi retratado principalmente na literatura.

Expressionismo

Surgido na Alemanha, o expressionismo valorizava a subjetivação e a expressão do artista. As suas obras eram frutos de suas inspirações interiores, utilizando recursos como a deformação da realidade em prol da produção intimista e individual. Uma das obras expressionistas mais famosas é “O Grito”, de Edvard Munch.

Dadaísmo

O dadaísmo possui suas origens ligadas à Primeira Guerra Mundial, já que nasce como uma forma de posicionamento frente a toda a desordem do conflito. O movimento propõe uma contestação ao rigor acadêmico, valorizando a anarquia e a improvisação nas obras. A obra “Fonte”, de Marcel Duchamp, costuma ser muito associada ao movimento.

Cubismo

O cubismo trabalha com uma subversão da realidade, principalmente com o uso de figuras geométricas, evidenciadas na pintura de Pablo Picasso. A utilização da geometrização da linguagem para a criação de figuras foi uma influência muito presente na literatura de Oswald de Andrade, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna.

Surrealismo

Por mais que as origens desse movimento tenham sido posteriores à própria Semana, o surrealismo influenciou todo o movimento modernista nos anos seguintes. O trabalho com o fantástico e com o sonho, associado aos trabalhos de psicologia de Sigmund Freud, criavam uma arte que procurava romper com a realidade. Salvador Dalí e Joan Miró são artistas associados ao surrealismo.

A Semana de 1922 enquanto ruptura

Inspirando-se nas vanguardas europeias, os artistas e intelectuais brasileiros, exemplificados por nomes como Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Mário de Andrade, também procuraram se opor totalmente aos modelos de arte vigentes no Brasil. Até então, a produção artística no país se caracterizava pelo rigor à forma acadêmica, seguindo com rigidez as regras estabelecidas por escolas clássicas, principalmente europeias. A literatura parnasiana - fortemente criticada pelos escritores modernistas - trazia poesias formais e regidas pela técnica.

Exposição de Anita Malfatti

Inspirada pelo expressionismo alemão, com o qual teve contato durante seu período de estudos em Berlim, a pintora Anita Malfatti, pouco tempo após retornar ao Brasil, realizou a Exposição de Pintura Moderna em São Paulo. Do dia 12 de dezembro de 1917 até o dia 11 de janeiro de 1918, a artista expôs mais de 50 obras, com destaque para Tropical, A estudante Russa e A Mulher de Cabelos Verdes.

As pinturas da artista chocaram a elite e os intelectuais locais, principalmente porque traziam elementos nunca antes vistos no Brasil. As pinceladas livres, o uso de tonalidades fortes e vívidas, e a liberdade de criação contrastavam completamente com o rigor técnico que apresentavam as obras anteriores. Por causa dessa quebra, é possível dizer que Anita foi a precursora da Semana de 1922, visto que sua primeira exposição trouxe novas visões sobre a arte e apresentou estilos além do impressionismo.

A exposição da artista foi duramente criticada, principalmente por Monteiro Lobato. Segundo ele, as obras de Anita nasciam com “a paranoia e com a mistificação”. O escritor chegou até a comparar as pinturas com desenhos colocados em paredes de manicômios. As severas opiniões de Lobato tiveram impacto sobre Malfatti, que até se afastou da cena artística por um período.  Em 1922, porém, a artista expõe 20 obras na Semana de Arte Moderna, integrando o Clube dos Cinco junto de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia.

A Semana de 1922 enquanto instauração

Segundo os intelectuais e artistas envolvidos na Semana de 1922, , o Brasil ainda não possuía um estilo de arte próprio, que retratasse completamente o que se vivia no país. Por mais que algumas obras mostrassem cenas comuns da nação, eles defendiam que as criações se baseavam nos modelos vindos de fora, principalmente de centros como Paris e Lisboa.

Por isso, os idealizadores da Semana de Arte Moderna queriam se inspirar nas vanguardas europeias, mas também caminhar para a adaptação de suas ideias para o contexto nacional. O uso de cores tropicais e de diferentes formas marcava o ideal de transgressão às regras artísticas comuns na época. Como parte das comemorações pelos 100 anos de Independência do Brasil (1822), a Semana de 1922 também deveria representar o processo de “independência” nas artes.

Como cita o semanista e escritor Menotti del Picchia, em documentário produzido pela TV Cultura em 2002, “a Semana de Arte Moderna não criou uma escola com regras, não impôs uma técnica, não formulou um código, mas formou uma consciência. Um movimento libertador a integrar nosso pensamento e nossa arte na nossa paisagem, no espírito da nossa autêntica brasilidade”.

A elite cafeeira paulista foi a grande financiadora do evento, visto que possuíam interesses em posicionar São Paulo como um potente centro cultural do país, e o Teatro Municipal de São Paulo foi o local escolhido. A divulgação foi feita nos jornais, muito porque diversos escritores participantes da Semana também trabalhavam nas redações.

Realização da semana

A princípio, as exposições tinham data para começar: 11 de fevereiro de 1922. Porém, efetivamente, elas se iniciaram no dia 13, com mais dois dias de duração: 15 e 17. Os idealizadores contaram com o apoio de importantes financiadores e de outros nomes conhecidos no cenário nacional, como o escritor e diplomata Graça Aranha.

As exposições foram abertas ao público, e cada um dos visitantes poderia dar sua opinião. Assim, também não foram raras as vaias e protestos das pessoas, que se dividiam entre a euforia e o espanto. Diversos músicos, artistas plásticos, escultores, poetas, pintores e escritores participaram da Semana, com destaque para nomes como:

Tarsila do Amaral (1886 - 1973)

A pintora paulista foi um dos principais nomes do movimento modernista, ainda que não se encontrasse no Brasil à época da semana de 1922. Mais tarde, seria parte integrante de um movimento conhecido como “antropofágico”, que procurava adaptar as influências estrangeiras para produzir uma arte brasileira. Em 1928, ela pinta o Abaporu, uma das obras mais importantes e famosas já produzidas no país.

Anita Malfatti (1889 - 1964)

As obras da artista, principalmente aquelas expostas na Exposição de Pintura Moderna, foram uma verdadeira inspiração para a realização da semana de 1922. Idealizadores, como Oswald de Andrade, retrataram que a pintura e a transgressão às regras de Anita deixavam os jovens e artistas “eufóricos” à época, impelindo-os a seguir o movimento.

Di Cavalcanti (1897 - 1976)

Além de pintor, Di Cavalcanti desempenhou várias outras funções, como desenhista, ilustrador, cartunista e jornalista. Foi um dos idealizadores e expositores da Semana de Arte moderna, incluindo 12 obras e exposições publicitárias.

Oswald de Andrade  (1890 - 1954)

O escritor foi um dos principais líderes da Semana de Arte Moderna, bem como de todo o movimento modernista no Brasil. Polêmico, irreverente e contestador, escreveu importantes documentos para o movimento, como o Manifesto Antropofágico e o Manifesto Pau-Brasil.

Mário de Andrade (1893 - 1945)

O autor da famosa poesia Paulicéia Desvairada, de 1922, também foi idealizador da Semana de Arte Moderna. Seu estilo de escrita marcou a primeira fase do modernismo que viria a se desenvolver, sendo ele um dos principais expoentes do movimento.

Manuel Bandeira (1886 - 1968)

Por causa de uma tuberculose, o escritor não pode comparecer à leitura da sua poesia Os Sapos, onde criticava duramente o estilo parnasiano. Leitura essa que, durante a Semana de 1922, teve que ser interrompida devido às constantes vaias e aos protestos do público.

Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959)

Heitor foi um maestro e compositor muito importante para o movimento modernista. Durante uma de suas apresentações na Semana de 1922, o artista subiu ao palco de chinelos, devido a uma unha encravada. A ação do público foi de intensas vaias, julgando que aquilo era um desrespeito à música.

O legado da Semana de Arte Moderna

À época, a Semana de Arte Moderna trouxe sentimentos confusos; ao mesmo tempo que alguns se empolgaram com as ideias disruptivas dos jovens, outros membros da elite paulistana se chocaram com o estilo de arte e as propostas inovadoras, que contrastavam totalmente com a ideia formal e acadêmica de arte até então.

As opiniões sobre seu legado também são diversas. Há críticos que dizem que o evento foi uma mera bagunça, produzida por alguns dos intelectuais e artistas da época. Outros já defendem que a data estabeleceu parâmetros importantes para a arte brasileira, moldando a forma como a população produzia e consumia arte no país.

De fato, durante a sua realização, a Semana não teve grande repercussão. Na verdade, ela teve sua importância reconhecida apenas anos depois, principalmente graças ao modernismo, importante movimento nas artes que se desenvolveria nas épocas seguintes. No post abaixo, você pode aprender mais sobre essa escola artística tão importante para o século XX:

O que foi o modernismo?

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