Imagem: Estátua de Martinho Lutero em Erfurt, Alemanha.

O termo reformas religiosas engloba todos os movimentos de contestação à Igreja Católica e de estabelecimento de novas religiões, acontecidos principalmente no século XVI.

O norte da Europa, representado por países como França, Alemanha, Holanda, Inglaterra e Suíça, foram berço para o nascimento das principais igrejas do período, além da Católica: a Luterana, a Calvinista e a Anglicana. Nos itens abaixo você irá aprender um pouco mais sobre cada uma delas, bem como os contextos que envolveram seus surgimentos.

Contexto histórico

Imagem: Teto da Capela Sistina, no Vaticano, em Roma. Produzida por Michelangelo, é um dos símbolos do movimento renascentista.

A priori, é preciso considerar que não havia apenas um único pensamento cristão na Europa medieval. A Igreja Católica era, de fato, uma instituição centralizadora e influente politicamente. Porém, nos variados territórios medievais, era possível encontrar práticas diversas do cristianismo, fortemente marcadas pelas tradições locais. O poder papal de Roma considerava uma heresia qualquer rito que fugia aos dogmas da Igreja, perseguindo os seus praticantes e gerando um sentimento de descontentamento.

Além disso, o Renascimento, movimento social, artístico e científico ocorrido na Europa entre os séculos XIV e XVI, contribuiu para reforçar as críticas à organização social da Idade Média. Os novos valores trazidos pelos principais nomes da época, que recuperavam a cultura greco-romana e seus ideais filosóficos e artísticos, como a razão e a ciência, contrastavam com dogmas da Igreja Católica e questionavam práticas já enraizadas na sociedade medieval.

No início, o Renascimento chegou a ser visto pela Igreja como uma chance de aprimorar algumas de suas próprias instalações. Foi o que houve com a Basílica de São Pedro, que recebeu uma grande reforma a fim de tentar aumentar o número de visitas de fiéis. Porém, os gastos além do planejado, exigiram que o papa tomasse medidas controversas para aumentar a arrecadação de impostos:o Papa Júlio II criou um documento que garantia o perdão aos pecados dos fiéis e um suposto “lugar no paraíso” para aqueles que pagassem por ele. Essa prática ficou conhecida como venda de indulgências e foi um dos motivos principais para as primeiras Reformas Protestantes que viriam a seguir.

Questionamentos à Igreja

A autoridade papal, à época, já não era mais vista como inquestionável, recebendo uma série de críticas de diversos setores da sociedade europeia. A nobreza, buscando expandir suas riquezas, ansiava pelas propriedades do clero. A burguesia estava insatisfeita com o fato da Igreja condenar os lucros e colocá-la como uma classe exploradora das demais. Os reis, por sua vez, não viam com bons olhos a obediência ao poder papal, desejando que a Igreja fosse subordinada ao Estado dentro dos territórios.

Além disso, a sociedade já apontava uma série de contradições praticadas pelos padres. Enquanto durante os rituais pregavam a pobreza e a simplicidade, em sua vida pessoal muitos ostentavam riquezas e cometiam gastos absurdos. Os escândalos envolvendo relacionamentos amorosos de algumas autoridades religiosas também colocavam em xeque os ideais propostos dentro das igrejas.

Foi em relação à venda de relíquias - como supostos pedaços da cruz e da roupa de Cristo, e outros produtos sem garantia de veracidade - e, principalmente, à venda de indulgências, que as revoltas se concentraram e permitiram o nascimento dos primeiros manifestos questionando o poder católico.

As 95 Teses de Martinho Lutero

Imagem: Estátua de Martinho Lutero em Erfurt, Alemanha.

Martinho Lutero (1483-1546), monge alemão agostiniano e professor de Teologia na Universidade de Wittenberg, foi o primeiro líder das Reformas Religiosas. Em 31 de outubro de 1517, Lutero escreve um documento e o fixa na Igreja do Castelo de Wittenberg. O escrito é conhecido como As 95 Teses de Lutero e, dentre suas ideias, estavam duras críticas ao poder papal e à venda de indulgências.

A Igreja, insatisfeita com a postura do monge, exigiu que ele se retratasse. Mesmo após diversas tentativas, Lutero se recusou a recuar e, por isso, acabou sendo expulso e excomungado da Igreja Católica. Com base nos ideias escritos nas 95 teses, o alemão caminhou para a criação da sua própria Igreja.

A Igreja Luterana

Primeiro, é importante pontuar que a atual Alemanha só nasce a partir de uma unificação no século XIX. Anteriormente, o território era conhecido por Sacro Império Romano-Germânico e, à época do século XVI, era comandado pelo rei Carlos V, da dinastia dos Habsburgos, que centralizava o poder em si e contava com o apoio da Igreja Católica.

Descontente com o poder centralizado nas mãos do rei, a nobreza alemã via em Lutero uma maneira de afrontar Carlos V. Assim, o apoiou militarmente em uma guerra contra as tropas do rei e da Igreja Católica. O confronto só cessou em 1555, com a assinatura da Paz de Augsburgo por Carlos V. O documento estabeleceu que o culto oficial do território seria determinado pela religião do príncipe. Em terras de governantes luteranos, a religião oficial era a Luterana; já em locais com líderes católicos, a Católica. Assim a nobreza consegue um de seus objetivos: subordinar a Igreja ao Estado.

Além disso, a Paz de Augsburgo reconheceu o nascimento da Igreja Luterana, doutrina que se baseava nas 95 Teses e tinha como um dos seus principais lemas a ideia de que a salvação é fruto da própria fé, pregando que somente as ações pessoais seriam responsáveis por salvar o indivíduo.

Para a religião Luterana, todo fiel deveria ler a Bíblia e fazer suas próprias interpretações do texto. Essa ideia demandou um esforço no sentido de alfabetizar a população luterana e traduzir os livros bíblicos, visto que anteriormente os textos eram lidos somente pelos líderes, como os padres, nas cerimônias católicas. Nesse sentido, a Igreja Luterana teve também um papel fundamental para o desenvolvimento da imprensa, visto que a leitura da Bíblia seria um pontapé inicial para a criação de uma cultura de leitura.

Por fim, enquanto os ritos católicos eram presididos em latim, os luteranos realizavam cultos na língua própria da região, popularizando as reflexões e aproximando o povo da Igreja. As diferentes interpretações da Bíblia propostas por Lutero também contribuíram para o nascimento de novas religiões, como o calvinismo.

Igreja Calvinista

Imagem: Muro dos Reformadores em Genebra, Suíça. Calvino é o segundo da esquerda para a direita.

João Calvino (1509-1564) nasceu na França e foi um intelectual católico bastante ligado à corte parisiense. Inspirado pelo humanismo e pelos próprios ideais de Lutero, Calvino se converteu ao protestantismo. Pouco depois fugiu de sua terra natal e se mudou para Genebra, na Suíça, onde permaneceu pelo resto da vida.

Diferenciando-se do Luteranismo, a Igreja Calvinista prega a ideia da predestinação do homem. A decisão da salvação vem de Deus, portanto, ler a Bíblia e valorizar a fé de nada adianta, pois é a vontade de Deus que escolhe entre a ida ao céu ou ao inferno.

Ainda, para os ideais calvinistas, não cabia ao homem saber se fora escolhido ou não para a salvação. Como método para diminuir esse sofrimento, começou a se espalhar pelos adeptos da religião a crença de que Deus dava alguns sinais da escolha.

A dedicação ao trabalho é uma maneira de fugir do pecado, já que a maioria do tempo seria dedicada aos ofícios, e não à prática de atos pecaminosos. O acúmulo de riquezas e a prosperidade seriam uma resposta de Deus a quem se dedicava e conseguia se afastar da transgressão, sendo também um desses sinais de salvação.

Enquanto a Igreja Luterana ficou reduzida aos territórios alemães, os ideias de Calvino se espalharam para a Inglaterra, para a Holanda, para a Escócia e para outros territórios europeus. Graças à valorização do trabalho e da riqueza, há uma associação muito forte entre a religião calvinista e o capitalismo emergente da burguesia, visto o intenso desenvolvimento econômico nas regiões em que a doutrina se instalava.

Igreja Anglicana

Imagem: Gravura do rei Henrique VIII, publicada em 1823.

Por volta do ano de 1534, o rei Henrique VIII, da Inglaterra, se vê diante de um impasse: estava casado com Catarina de Aragão e não possuía um herdeiro O monarca só tinha uma filha mulher, Maria, e, segundo o pensamento da época, necessitava ter um filho homem para ser seu sucessor. Então, pede à Igreja a anulação de seu casamento para se unir à Ana Bolena, amante de Henrique no período.

A Igreja Católica nega o pedido do rei que, por sua vez, defende que um poder papal vindo de Roma não poderia decidir questões tão importantes para a Inglaterra. A situação, ainda, coincidia com um desejo já antigo da monarquia inglesa de subordinar a religião ao Estado e tomar as terras do clero.

Assim, o Parlamento Inglês reconhece a ilegalidade do ato da Igreja Católica e concede ao rei o reconhecimento oficial da Igreja Anglicana, uma religião estatal em que Henrique VIII se coloca como chefe de Estado e da religião. Com isso, o rei confiscou as terras e os bens da Igreja.

A Igreja Anglicana traz questões bem peculiares quanto às suas práticas. Enquanto suas bases traziam ideais protestantes de acumulação de riquezas, seus cultos eram tradicionalmente católicos, aproveitando até mesmo os nomes dos locais e dos cargos, por exemplo.

Contrarreforma

Imagem: pintura Conselho Geral do Concílio de Trento, Elia Naurizio, 1633.

Perante a intensa perda de territórios e de fiéis, a Igreja Católica se vê obrigada a dar uma resposta, ainda no século XVI. A cúpula da Igreja se reúne no encontro que ficou conhecido como Concílio de Trento (1545-1563). A proposta era analisar a legitimidade dos questionamentos protestantes e pensar em como a Santa Sé poderia se posicionar perante tudo isso.

Nesse momento, ficou definido que os movimentos protestantes eram heresias e quem os apoiasse seria considerado herege. O Tribunal do Santo Ofício, ou Tribunal da Inquisição, foi então reativado para perseguir quem se opusesse à fé católica. Além disso, uma série de livros e publicações foram proibidos e considerados afrontas à Igreja.

Enquanto na Europa a postura da Igreja era de repressão, havia uma ideia paralela de espalhar os ideais católicos. Com o auxílio de um nobre católico chamado Inácio de Loyola, foi criada a Companhia de Jesus, responsável por trazer a fé católica para as américas através dos jesuítas, conseguindo novos fiéis e permitindo que a Igreja continuasse seu trabalho no Novo Mundo.

Nesse sentido, as Reformas Religiosas devem ser vistas como movimentos importantes que ajudaram a moldar a Europa da Idade Moderna, trazendo novos contextos sociais e políticos às principais potências da época.

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